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Escola Superior de Educação de Santarém

Jornadas Mulheres no Ribatejo

A primeira edição, realizou-se em Março de 2006 e, para além de permitir a discussão sobre o tópico, teve como figura central a pessoa de Eulália Marques - a primeira mulher que quisémos homenagear.

 
Recordações de uma mulher no Ribatejo PDF Imprimir EMail
Escrito por Eulália Marques   
Sunday, 02 April 2006

Eulália MarquesAparentemente, as mulheres afirmam-se em todos os domínios. Por que é então ainda necessário um "Dia Internacional da Mulher"? O que tornou o 8 de Março de 1859 um dia invulgar? Como surgiu a ideia de celebrar a data? Eulália Marques explica.

Ficheiro audio em formato mp3  da 1ª parte da comunicação \"Mulheres no Ribatejo \" de Eulália Marques.Duração: 8´39\". Ouvir [eulalia_recordacoes_1]

Hoje é dia 8 de Março, toda a gente sabe, não é verdade? É o Dia Internacional da Mulher, memória do nosso protesto, memória da nossa luta, mas também da nossa firmeza e da alegria de sermos mulheres. Para alguns parecerá despropositado no século XXI falar do Dia Internacional da Mulher, quando por quase todo o mundo as mulheres se afirmam em todos os domínios das actividades humanas. É que a urgência de impedir situações discriminatórias e sexistas ainda tem sentido no nosso quotidiano. É forçoso lembrar também a situação das mulheres que vivem em sociedades onde imperam os fundamentalismos num processo de retrocesso na sua condição feminina  que viola a Declaração Universal não só dos Direitos Humanos, mas também dos Direitos das Mulheres. É interessante verificar que apenas em Pequim, em 1995, numa Conferência Mundial das Nações Unidas sobre as mulheres, estes direitos das mulheres foram formalizados como direitos humanos. É incrível, não é? 

Não podemos esquecer que os manuais de história que os nossos alunos utilizam ainda hoje fazem do homem o principal protagonista da história, um protagonista privilegiado no processo histórico quer nos avanços, quer nos recuos da humanidade.

Em muitas das obras literárias para análise dos alunos ainda se encontra explicitamente a visão “teológica” da mulher: o anjo do lar, que organiza os espaços familiares e cede aos desejos do marido numa situação de sujeição ao ser masculino.

Como não me lembrar neste dia as mulheres trabalhadoras, esposas e mães? Como não lembrar a violência doméstica? Como não lembrar as mães argentinas da Praça de Maio, as mães chilenas, as mulheres africanas, as mães solteiras, as mães portuguesas torturadas pela PIDE, as jovens sem futuro imersas num mundo de autodestruição? Como não lembrar esta mulher mexicana, Otília Eugénio Manuel, que recebe ameaças de morte desde Dezembro de 2004, porque é líder de um movimento de autonomia para povos autóctones e denunciou à polícia duas violações de mulheres desse movimento por dois soldados? Pede-se às autoridades mexicanas que vigiem o caso, e penso que todos nós vamos assinar o abaixo-assinado que se encontra na secretaria e que está relacionado com a Amnistia Internacional. Agradecemos que todos nós pensemos nesta mulher ameaçada de morte só porque denunciou duas violações do grupo de mulheres a que ela pertence.

Como devem estar lembrados, queridas amigas e queridos amigos, é no século XIX que as mulheres como torrente caudalosa invadem as ruas para gritar o seu sentir, o seu protesto pelas condições infra humanas em que trabalham, lutando pelos seus direitos de mulheres e de cidadãs.

Em 1842, Betty Harris, de 37 anos, fala-nos do seu trabalho árduo nas minas inglesas. Diz-nos ela: “Não sei ler nem escrever. Puxo vagonetas de carvão e trabalho desde as seis da manhã às seis da noite. Há uma pausa de meia hora, dão-nos pão com manteiga e nada para beber. Tenho três filhos, ainda muito novos para trabalhar”. A simples leitura deste texto (de um relatório parlamentar inglês) faz-nos sentir pelo tom a angústia desta mulher.

Não podemos esquecer que este dia 8 de Março homenageia as operárias, as 129 operárias que no 8 de Março de 1859, nos Estados Unidos da América, lutaram pela redução diária do trabalho diário e por salários iguais aos dos homens. Foram espezinhadas, queimadas, espancadas, mas não desistiram e ajudaram a criar movimentos que ainda hoje subsistem entre nós.

Em 1910, na Conferência de Copenhaga, em homenagem a estas trabalhadoras, Clara Zetkin propôs que o dia 8 de Março fosse o nosso dia. Depois, foi o engrossar da torrente e em 1911 um milhão de mulheres celebrou este dia na Alemanha, em França, na Dinamarca.

Em Portugal, a opressão salazarista até isso nos tirou. Apesar das dificuldades e da repressão, muitas mulheres de coragem continuaram a comemorar o nosso dia com piqueniques, com colóquios, ou com a simples distribuição de manifestos nas suas zonas. É de salientar o trabalho do MDM (Movimento Democrático das Mulheres) em Santarém.

Só em 1975 pudemos comemorar livremente o nosso dia e continuámos todos os anos com firmeza e determinação a fazer ouvir a nossa voz, a sorrir à vida, num mundo de cegos e surdos que ainda não compreenderam o muito que temos para dar, mas apenas vêem o muito que também teimamos em receber.

Apenas uma chamada de atenção para dois casos curiosos passados este ano: no Brasil, o Corso Carnavalesco carioca foi dedicado às mulheres; e os dois Óscares para interpretação feminina foram entregues a duas excelentes actrizes que protagonizam a história de duas mulheres a primeira lutou contra o racismo e morreu, a segunda lutou contra a situação infra humana, contra o assédio sexual que sofriam as mineiras na América do Norte.

Neste dia 8 de Março de 2006, festejemos o nosso dia consciente que temos contribuído para mudar o curso da história, com a nossa luta, mas também com a nossa ternura ao lado dos homens, companheiras dos homens, em tudo sempre mulheres.   

Antes de entrar no tema que vos trago para estas primeiras jornadas “Mulheres no Ribatejo”, quero agradecer à ESES, à Teresa Cláudia e a toda a organização do Encontro, que mais uma vez me proporcionaram a possibilidade de reflectir, de reflectirmos sobre os problemas que nos movem na continuidade da luta pelos direitos das mulheres e também a possibilidade que me deram de abraçar amigos e amigas que quiseram estar connosco e de fazermos ouvir a nossa voz. Obrigada Teresa!

Ficheiro audio em formato mp3  da 2ª parte da comunicação \"Mulheres no Ribatejo \" de Eulália Marques.Duração: 8´47\". Ouvir [eulalia_recordacoes_2]

O tema que vos proponho, “Recordações de uma Mulher no Ribatejo”, traz consigo alguns pressupostos que complexificam a sua abordagem.

Em primeiro lugar porque a minha vivência dos problemas inerentes à condição feminina na sociedade em que nasci, cresci e me tornei adulta, me passaram um pouco ao lado, pois o meu universo familiar, em que pontificavam as mulheres, era demasiado proteccionista e conservador para que estas questões fossem abordadas apenas me apercebia, quase intuitivamente, de algumas diferenças entre mim e outras raparigas da minha idade, ou entre mim e outras amigas mais favorecidas.

Em segundo lugar, porque cresci num meio rural, o Vale de Santarém; de certo modo desligado dos problemas urbanos no feminino, pois os que a ruralidade originava eram suficientes para as mulheres. Assim, só com a convivência com amigas de outros estratos sociais, mais privilegiados que o meu (neta de pequenos lavradores), me fui apercebendo das diferenças das situações sociais, económicas ou culturais.

Por outro lado teremos de ter em conta os sistemas de dominação a que sempre estivemos sujeitas: a família, a escola, a comunidade, a profissão, e a moral e a religião vigentes. A imposição de atitudes, comportamentos e tarefas atribuídas às melhores era acompanhada pela imposição de um vestuário dado como adequado para a nossa condição nas várias situações que a vida também nos impunha. E finalmente não podemos nunca esquecer que vivemos num Portugal nocturno e opressivo, antes de Abril que nos trouxe nos tempos próximos da Revolução- um Portugal luminoso, apolíneo, gerador de felicidade, de alegria e de solidariedade.

Do Cancioneiro Popular do Ribatejo trago-vos uma quadra que reflecte bem a mentalidade marialva e, porque não, até ofensiva, de alguns homens do Ribatejo e infelizmente de muitas mulheres:

“Minha mulher, meu cavalo,
ambos morreram num dia,
leve o diabo a mulher,
o meu cavalo é que eu queria”

Diz-nos Maria Lamas nas sua magnífica e pioneira obra “As Mulheres do Meu País” que “a mulher ribatejana reflectindo embora tudo quanto constitui as circunstancias naturais e o clima psicológico da sua província, não se distingue nos traços aparentes das outras mulheres portuguesas”.

Estas “mulheres do meu país”, são do “nosso” país; são especificamente as camponesas no Ribatejo; e volto a citar:

“ As circunstancias naturais, são relevantes por exemplo nos trajes tradicionais da lezíria, do bairro ou da charneca. Enquanto na lezíria o vermelho é a cor privilegiada para as saias femininas, nas zonas do bairro e da charneca as cores utilizadas nos trajes são mais escuras e mais discretas. Inclusive a dança da lezíria é uma dança agitada eufórica, é o fandango, é o vira, e outras danças de grande alegria, enquanto no bairro e na charneca as danças são arrastadas, elas e eles quase que flutuam no espaço em que dançam”.

Fica-se, realmente impressionado com esta diferença entre as danças e os trajes das mulheres no Ribatejo.As mulheres ribatejanas, no entanto, não são as principais protagonistas dos trabalhos na lezíria, mas partilham a vida dos seus homens, os campinos, de quem sentem particular orgulho pela tradicional bravura perante a lide dos toiros, habitantes privilegiados desta zona.

No entanto, tanto em Santarém - cidade que vive entre o rural e o urbano - como nos campos envolventes é fulcral a colaboração feminina, nos diversos trabalhos agrícolas, sobretudo ligados à vinha, ao azeite, assim como a novas culturas que têm sido introduzidas no Ribatejo. Geralmente o trabalho para as grandes casas agrícolas é feito em ranchos comandados por um capataz, muitas vezes utilizando um sistema de dominação tal que chega mesmo à situação de assédio sexual. Todos e todas sabemos como os trabalhos do campo são pesados, como vergam os corpos femininos quer seja nos arrozais, nas sachas, nas vindimas ou na apanha da azeitona. Algumas comunidades femininas sobressaiem no Ribatejo pelos seus usos e costumes e até pelo seu vestuário como as mulheres da Glória do Ribatejo da Fajarda, de Foros, de Coruche ou do Couço.

 No  Ribatejo fixaram-se ainda comunidades específicas como a dos avieiros , que vivem, (ou melhor que viviam) no rio Tejo e do rio Tejo. Em Santarém fixaram-se nas Caneiras, onde foram construindo algumas de estacaria: o sonho de uma vida passada nos barcos, onde tudo acontece, como se de um verdadeiro lar se tratasse. De tal modo que muitos dos nascimentos e tudo o que tinha a ver com os nascimentos era feito nos barcos. As mulheres avieiras labutavam arduamente ao lado dos homens, enquanto eles pescavam, elas remavam.

Outras mulheres, vindas em ranchos, fixavam-se temporariamente perto dos seus locais de trabalho; chamavam-lhes depreciativamente “gaibéuas”. Lembro-me bem destes ranchos, pois junto da minha casa existiam uns barracões, onde homens e mulheres viviam durante meses sem condições de higiene, sem condições de coisa nenhuma.

 Nas épocas em que não havia os ranchos de gaibéus e de gaibéuas os barracões eram ocupados por famílias ciganas que faziam as delícias da minha infância com os seus cantares. Cheguei a travar amizade com muitos deles, tendo assistido até a casamentos, que eram muito interessantes. Lembro-me ainda: o ritual do casamento era realmente muito interessante, lembro-me ainda das enormes fogueiras, perdão das enormes figueiras que existiam no meu quintal, que muitas vezes proporcionaram a muitas ciganas uma razoável refeição vegetariana. Havia uma cigana, a Esperança, por quem eu tinha grande admiração, não sei se por ela ser lindíssima e ter uns magníficos olhos verdes, que brilhavam no seu rosto trigueiro.

Também perto da minha casa havia a praça de jorna. Aqui fazia-me muita confusão aquele amontoado de homens, sobretudo de homens, porque as mulheres não apareciam muito nesta praça de jorna. Fazia-me muita confusão pois ouvia nomes e números que ultrapassavam a minha compreensão. Também vi muita angústia em alguns rostos, quando os trabalhos lhe eram negados - e muitas vezes eram-lhes negados por motivos políticos. A minha infância, apesar das dificuldades inerentes a uma família remediada e a momentos conjunturais como a 2ª Guerra Mundial e as suas consequências na falta de géneros essenciais, foi uma infância feliz. Recordo a propósito disso estar com a minha avó nas bichas de mercearia, onde adquiríamos géneros alimentares através da apresentação de uns papelinhos que mais tarde vim a saber chamarem-se “senhas de racionamento”.

Ficheiro audio em formato mp3  da 3ª parte da comunicação \"Mulheres no Ribatejo \" de Eulália Marques.Duração: 6´42\". Ouvir [eulalia_recordacoes_3]

A partir dos 5 anos deixei de ser filha única, pois a nossa família aumentou com o nascimento de uma rapariga, para no ano seguinte aparecer outra rapariga, minhas primas; foram mais que primas, foram irmãs, porque foram criadas pela minha mãe, por isso desde então coabitaram em minha casa. E, tomando a minha família como um certo paradigma destas coisas das mulheres no Ribatejo, na minha casa estavam quatro gerações de mulheres: a da minha avó, a da minha mãe, a minha e a das minhas primas irmãs.

Cedo me apercebi que afinal quem mandava lá em casa era a minha avó, uma mulher corajosa e decidida que quase até ao final dos seus dias trabalhou ao lado dos seus “servos”, como ela chamava aos trabalhadores que colaboravam nos trabalhos do campo. A minha mãe também tinha um certo poder, apesar da enorme submissão aos pais, sobretudo à mãe, e, diria mais, um certo receio da mãe, porque a minha mãe adorava ler e quando a minha avó se aproximava em pequeninos momentos de lazer dos poucos que ela tinha, (porque era ela que tratava da casa e fazia o nosso vestuário,) ela imediatamente escondia o livro ou a revista que tinha na mão. Claro que nunca mais saberei porquê. Eu revoltava-me e dizia “Mãe, estás a ler porque é que escondes o livro, a avó não te bate”, mas ela escondia o livro ou a revista.

Dizia eu que a minha mãe tinha também um certo poder; e penso que esse poder residia nos estudos que adquiriu, isto é, ela fez a 4ª classe, sabia ler e escrever e tinha umas mãos preciosas para a costura, as rendas e os bordados. Era ela, como eu disse, que confeccionava o vestuário de toda a família, foi ela que me incutiu o gosto pela leitura. Eu era uma apaixonada pelas histórias aos quadradinhos, nos dias em que chegava o Diabrete, o caminho entre a escola e a minha casa encurtava porque eu fazia-o a correr para lê-lo antes da minha mãe.

A partir dos 6 anos, a minha vida passava-se entre a escola e a família. A minha professora, a Senhora Dona Tomásia Alexandra Pinto Ribeiro Guimarães Rodrigues, foi durante alguns anos o meu ídolo (dizia ela que não assinava mais porque já tinha um nome muito grande) até ao dia em que me feriu afectivamente, atirando para o balde do lixo o ramo de flores que eu amorosamente tinha apanhado naquela manhã para lhe oferecer no dia dos anos. Já na escola primária me apercebia da descriminação que ela fazia, ela e a sua mãe, entre as meninas mais privilegiadas e as menos privilegiadas, que eram as que apanhavam mais reguadas e mais varadas e também eram elas a quem dava menos atenção.

A minha mãe cultivava uma moral conservadora, cheia de tabus, fruto de uma sociedade repressora e castradora do ser e do estar femininos. As coisas mais essenciais da vida feminina, como por exemplo a informação sobre o período menstrual, nunca me foi dada. Só tive conhecimento que ele ( o período menstrual) existia depois de o ter, e nunca tendo confessado à minha mãe que tinha uma doença terrível que me atormentava. A sua protecção era de tal modo exagerada que um dia apanhei uns estalos  porque me encontrou um bilhetinho de amor no bolso do avental que usara nos ensaios de danças e cantares para o cortejo de oferendas a favor do hospital de Santarém. Era nada mais nada menos do que de um primo da Eunice Munoz que era meu vizinho ( a Eunice Munoz um dia confessou-me que tinha aprendido a andar de bicicleta no vale de Santarém) nunca cheguei a saber qual o conteúdo do bilhetinho, apenas me apercebi que começava assim: “Minha Cerida Eulália”. Minha “cerida” em vez de minha “querida”; coitadinho ele não sabia escrever querida…

A minha relação com as camponesas do Vale de Santarém de Vila Chã ou do Cartaxo, que passavam à minha porta ou se cruzavam comigo quando eu ia para a escola era divertidíssima, pois a todas eu chamava de primas, o que as divertia imenso. Só não gostava muito quando elas gozavam comigo dizendo que eu era muito grande para ainda andar na escola; ora debaixo daquele corpo grande havia uma criança de seis ou sete anos.

Ainda mantenho algumas das minhas amigas de infância, a Regina, a Maria Hermínia, que me iniciou na música erudita - lembras-te de contos de Hoffman? A Sabina, uma reguila de pé descalço, uma das minhas preferidas porque dizia muitas asneiras, o que me divertia imenso, com a Baticha e as irmãs fazíamos os Circos que a Mimi Munoz levava a Santarém (ao Vale de Santarém), mas também me diverti com a Cremilde, com a Maria Etelvina, minha vizinha, e com a Hélia, minha irmã de leite.
A ida para o liceu abriu-me novas perspectivas, as viagens de autocarro proporcionaram-me novas amizades, femininas e também masculinas. Reencontrei algumas das minhas amigas da escola primária, o que me causou grande alegria - o caso da Hermínia, da Baticha e de tantas outras que andaram comigo na escola primária. Apesar de possuidora de uma certa rebeldia e de atitudes contestatárias, nunca fui desrespeitadora em relação aos meus professores, mesmo que tenha colaborado em algumas brincadeiras, que fazíamos a professores por nós considerados menos dotados ou que apresentavam características fora do comum.

Ficheiro audio em formato mp3  da 4ª parte da comunicação \"Mulheres no Ribatejo \" de Eulália Marques.Duração: 6´18\". Ouvir [eulalia_recordacoes_4]

A integração das estudantes na Mocidade Portuguesa Feminina e a quase obrigatoriedade da leitura das suas publicações (os Lusitos, a Fagulha, a Menina e Moça, Ao Largo, De Mãos Dadas) eram veículos privilegiados para nos incutir o culto do chefe, o elogio dos nossos heróis, assim como a visão conservadora das mulheres contemplando as ideias fascistas vigentes; o uso do uniforme, que eu nunca adquiri por motivos económicos, era outra forma de repressão. O próprio hino da Mocidade Portuguesa era discriminatório: chamava-se Mocidade Lusitana e falava dos guerreiros que usavam espadas e escudos, enquanto nós éramos as herdeiras de uma herança que tínhamos que manter para o resto da vida. Inocente, ignorante do que se passava politicamente, a Mocidade Portuguesa Feminina divertia-me imenso pois proporcionava-me actividades de que gostava: o teatro, o canto e a dança - lembras-te, Baticha, das nossas sessões? A Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina constituíram portanto uma forma privilegiada de instrumentação ideológica do regime.

Uma das minhas atitudes subversivas para a época foi o uso de calças e calções na minha aldeia. As minhas primeiras calças, é interessante lembrar, foram feitas por minha mãe, a partir de umas calças do meu pai; ainda hoje as conservo. Andar de bicicleta e confraternizar com rapazes foram mais dois comportamentos inadequados, pelo que muitas vezes me chamavam "maluca", palavra quase tão terrível como ser chamada de "prostituta". Não dei importância nenhuma - a minha mãe é que dava, a minha avó nem tanto: era muito mais pra-frentex que a minha mãe, é interessante…

Os mágicos anos 60 foram de grande relevância para mim: acabei o curso liceal, completei o curso do magistério primário, casei, tive um filho - e aprendi em África que tinha vivido 27 anos de mentira.

África foi a minha escola política. Pela primeira vez na minha vida fui chamada de "comunista" - pela forma respeitadora e até afectuosa com que tratava o rapaz que fazia companhia ao meu filho, enquanto eu e o meu marido trabalhávamos.

E também fui chamada displicentemente de "feminista" - porque não ia ao beija-mão do general dos olhos verdes acabado de chegar do norte de Moçambique. Enquanto aquelas galinhas tontas cacarejavam à volta do general, eu mantinha-me impávida e serena no meu lugar, gozando o espectáculo.

O meu envolvimento político nas causas das mulheres africanas foi inexistente, mas tive oportunidade, já no ensino preparatório, de deixar algumas pequenas sementes de rebelião junto dos meus alunos, o que me valeu ser admoestada pelo director da escola de Vila Salazar, no sentido de não falar em determinados assuntos pois eram perigosos.

É necessário lembrar, aos mais jovens e aos desmemoriados, que nos tempos de opressão o Estado Novo impunha às mulheres profissionais do ensino condições específicas no que respeitava ao vestuário ou ao futuro marido. Só podíamos usar saias, mas como no primeiro ano de serviço - na Azinhaga do Ribatejo ( uma terra muito interessante, aonde se praticava ainda o direito de pernada, lembram-se do que é isso? O patrão, o amo, o senhor, tinha "direito" à primeira noite  de casamento [das pessoas qiue trabalhavam para ele]) , tinha de percorrer oito quilómetros a pé ou de bicicleta até Mato Miranda para apanhar o comboio para Santarém, pedi ao director escolar para usar calças. Foi difícil convencê-lo, mas lá consegui - mas com condições tremendamente ridículas: tinha que mudar para saias na ecola e no comboio. Aguentei o ano lectivo nesta situação ridícula. Quanto à bicicleta em que eu andava, andava mais para trás do que para a frente, era uma bicicleta de homem, lembram-se? Tem aquela parte em que nós temos que levantar a perna e andar com as pernas à mostra, não é? E eu lá convenci o director de que isso não era adequado para uma professora do ensino primário.

Quanto ao casamento, ele não podia ser contraído com toda a gente, sobretudo com aqueles que ganhassem menos do que nós, estão a ver, não estão? No caso de se casar com alguém das forças armadas, que foi o meu caso, era obrigatório apresentar atestados de bom comportamento moral e cívico passados não só pela Junta de Freguesia, mas também pelo senhor prior que não me conhecia de lado nenhum. Quase que não me casei por causa deste problema.

Às mulheres eram pedidos ainda alguns sacrifícios tremendos, como por exemplo às enfermeiras pára-quedistas, que eram proibidas de casar. O meu marido, que é da força aérea, está ali para testemunhar…

Ficheiro audio em formato mp3  da 5ª parte da comunicação \"Mulheres no Ribatejo \" de Eulália Marques.Duração: 7´39\". Ouvir [eulalia_recordacoes_5]

Abril foi a liberdade, o deslumbramento, a felicidade por estar viva e poder viver o momento com as amigas e os amigos, com outros homens e outras mulheres. A integração no movimento sindical, as reuniões políticas, culturais e profissionais, encheram as nossas vidas, dando-lhes agora um significado: aprofundando a cidadania, vencendo barreiras, conquistando direitos. Infelizmente tudo se tem desmoronado até aos nossos dias: sub-repticiamente umas vezes, outras às claras. A discriminação manteve-se; as lutas encetadas pelas mulheres de Almeirim, Alpiarça, Coruche, Golegã ou Couço ainda hoje fazem sentido.

No entanto, falar de "feminismo" em relação às minhas atitudes ou em relação às movimentações das mulheres no Ribatejo que já citei, entre muitas outras, pareceu-me um pouco abusivo. Porém, se "feminismo" significa luta e aprendizagem; se estes movimentos femininos despertaram consciências, ou promoveram a solidariedade, então tudo o que se passou se pode inserir nos movimentos feministas.

É difícil afirmar, sem aprofundar e investigar alguns assuntos, que houve feministas em Santarém. Que eu saiba, houve talvez um feminista, aquele a quem eu chamo afectivamente o "meu" Guilherme de Azevedo, que, nos anos 60 do século XIX, defendeu a emancipação das mulheres. Numa pequenina peça em um acto chamada “Temporais Domésticos”, em que ele faz a apologia da libertação da mulher, da emancipação da mulher no sentido da reunião, no sentido de ser ela própria. De tal modo que, no final da peça - que não tem valor literário nenhum, apenas tem este valor de impulsionar a libertação da mulher -, no final da peça o marido diz (perante o público) que errou; e pede perdão à mulher pelas armadilhas que lhe fez no sentido de a apanhar em flagrante - por exemplo, com o vizinho que queria propor-lhe namoro apesar de casada… É uma peça muito interessante, neste sentido em que um homem - do Ribatejo e no Ribatejo - defendeu a emancipação da mulher. Guilherme de Azevedo é, nada mais nada menos, do que o tio-avô de Elina Guimarães, que tinha grande admiração pelo seu tio-avô, exactamente por este "lado feminista" que ele talvez tivesse. Apesar de na poesia ser tradicionalíssimo da costa, como nós costumamos dizer…

Como lembra Lurdes Pintassilgo: "a consciencialização individual é o primeiro passo para uma consciência feminista; da experiência pessoal decorre como segunda etapa a experiência da universalidade da dominação sexista."

A participação das mulheres após Abril nas movimentações sociais, políticas e culturais, na luta pelo emprego ou pela paridade politica e sindical, fez com que as mulheres portuguesas sentissem o prazer da participação com a palavra e o gesto. Foi um percurso ímpar e mágico na conquista de uma cidadania feminina que afirmou e valorizou o contributo por elas dado na construção do novo Portugal.

No entanto, apesar das alterações legislativas, da formalização e legislação das organizações femininas criadas na clandestinidade, da feminização de certas profissões, da inclusão das mulheres nos vários ramos das forças armadas ou da PSP e da aparente abertura de uma classe média para as formas equilibrantes de uma situação discriminatória em relação às mulheres, muito há ainda a fazer para que se cumpra Abril.

É urgente que o discurso político se articule com a prática politica, que se acabe com iliteracia, fazendo de cada mulher um ser com o poder da palavra.

É urgente o reconhecimento de que as competências e as capacidades femininas são iguais às dos homens, embora diferentes.

É urgente proporcionar às mulheres momentos de encontro, como este, onde possam reflectir e discutir sobre os problemas que mais as afectam ou que afectam outras mulheres.

O associativismo feminino vive um tempo de fragilidade, é legitimo que as mulheres conquistem lugares de liderança, pois a sociedade só pode encontrar vantagens na implicação das mulheres em redes de integração de saberes que funcionem como capital social, susceptível de investimento no bem comum; e por isso o acesso das mulheres às lideranças deve ser estimulado enquanto estratégia de equiparação de oportunidades entre os géneros.

É preciso lembrar, como Maria de Lurdes Pintassilgo, que “feminismo não é uma luta das mulheres contra os homens. É a luta das mulheres pela sua autodeterminação. É o processo de libertação de uma cultura subjugada, é a conquista do espaço social e politico onde a mulher tenha lugar”.

Os homens têm de compreender que a nossa luta é a sua luta.

Amigas e amigos: lutemos por uma cultura de paz, por uma cultura de defesa de todos os seres, por uma cultura dos saberes, pela afirmação das nossas competências e capacidades, pela afirmação da nossa sensibilidade, da nossa forma diferente de estar e de ser.

Contudo, não esqueçamos nunca que foi Abril que nos deu o gesto e a palavra:

"Fala de nós por dentro da raiz.
Mulheres, quebrámos grandes barricadas
Dizendo igualdade a quem ouvir nos quis.
E assim continuamos de mãos dadas
Porque somos mulheres do meu país”

- é um lindíssimo poema de Maria Teresa Horta.

Obrigada por ouvirem as minhas palavras.
Foi um discurso de afectos, mas que encerra uma pedagogia da memória no sentido de informar os mais jovens sobre Portugal antes de Abril.
Para lembrar os motivos da Revolução dos Cravos; para falar das mulheres; e para exercitar a memória contra o esquecimento.

Obrigada.
                      

 

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