{"id":993,"date":"2019-02-11T12:54:19","date_gmt":"2019-02-11T12:54:19","guid":{"rendered":"http:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/?p=993"},"modified":"2019-02-11T12:55:20","modified_gmt":"2019-02-11T12:55:20","slug":"porque-a-pilar-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/porque-a-pilar-existe\/","title":{"rendered":"Porque a Pilar existe"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<div class=\"columns small-12\">\n<div class=\"opinion\">\n<div class=\"lead\">\n<p>Onze jovens que optam por estudar no Polit\u00e9cnico de Santar\u00e9m n\u00e3o fariam hist\u00f3ria se n\u00e3o tivessem uma caracter\u00edstica comum: todos t\u00eam mais de 18 anos e um d\u00e9fice cognitivo igual ou superior a 60%.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2116-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"231\" class=\"wp-image-994 aligncenter\" srcset=\"https:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2116-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2116-600x400.jpg 600w, https:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2116-300x200.jpg 300w, https:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2116-768x512.jpg 768w, https:\/\/w3.ese.ipsantarem.pt\/literaciadigital\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSC_2116-360x240.jpg 360w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"xlarge-9 columns\">\n<div class=\"content\">\n<p>Hoje escrevo porque a Pilar existe, mas sobretudo porque existem muitos outros como ela. A Pilar tem 23 anos e acaba de entrar na forma\u00e7\u00e3o em Literacia Digital para o Mercado de Trabalho, na Escola Superior de Educa\u00e7\u00e3o do Instituto Polit\u00e9cnico de Santar\u00e9m. Ela e outros 10 jovens como ela ser\u00e3o os primeiros alunos deste forma\u00e7\u00e3o pioneira em Portugal. Aparentemente nada de extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Onze jovens que optam por estudar no Polit\u00e9cnico de Santar\u00e9m n\u00e3o fariam hist\u00f3ria se n\u00e3o tivessem uma caracter\u00edstica comum: todos t\u00eam mais de 18 anos e um d\u00e9fice cognitivo igual ou superior a 60%. E s\u00f3 por isto, ficam automaticamente fora do ensino superior, seja nas universidades ou institutos polit\u00e9cnicos. E n\u00e3o h\u00e1 direito que algu\u00e9m seja exclu\u00eddo por ter um simples cromossoma a mais!<\/p>\n<p>Os pais de filhos com T21 sabem bem do que eles s\u00e3o capazes, mas tamb\u00e9m conhecem a frustra\u00e7\u00e3o e os retrocessos com que s\u00e3o obrigados a lidar porque o sistema de ensino n\u00e3o lhes d\u00e1 abertura a partir dos 18 anos, nem providencia cursos com sa\u00eddas profissionais para jovens que n\u00e3o considera iguais.<\/p>\n<p>Devo dizer que detesto quase toda a terminologia associada a pessoas com algum tipo de diferen\u00e7a e condicionalismos internos ou externos. Detesto, acima de tudo, a palavra \u2018deficiente\u2019. Acho-a abomin\u00e1vel e injustific\u00e1vel. Lido regularmente com adultos, jovens e crian\u00e7as que foram rotulados por andarem em cadeiras de rodas, por terem doen\u00e7as ou circunst\u00e2ncias espec\u00edficas que condicionam os seus movimentos e a sua aprendizagem, mas \u00e9 justamente por estar t\u00e3o pr\u00f3xima destas pessoas que as acho ainda mais capazes do que as ditas \u2018normais\u2019.<\/p>\n<p>Se forem alguma coisa e tiverem que ter algum r\u00f3tulo, ent\u00e3o que seja \u2018super-eficientes\u2019. Isto, porque mesmo partindo com alguma desvantagem, conseguem muitas vezes mais e melhor do que n\u00f3s, os considerados normais. Conseguem, desde logo, ter um<span>\u00a0<\/span><em>endurance<\/em><span>\u00a0<\/span>a toda a prova e uma resili\u00eancia invulgar, pois n\u00e3o h\u00e1 hora nem dia das suas vidas em que n\u00e3o sejam obrigados a superar obst\u00e1culos, a contornar barreiras, a lidar com preconceitos humilhantes e estigmas redutores.<\/p>\n<p>A bem dizer, a palavra \u2018normalidade\u2019 \u00e9, em si mesmo, uma anormalidade. Uma aberra\u00e7\u00e3o que decorre de uma leitura enviesada da realidade, pois ningu\u00e9m \u00e0 face da terra se pode considerar inteiramente \u2018normal\u2019. Todos temos as nossas limita\u00e7\u00f5es, fragilidades e patologias. Isso sim, \u00e9 normal. \u00c9 normal sermos diferentes, uns mais eficazes que os outros, mas nunca julgados como eficientes ou deficientes por sermos portadores de doen\u00e7as, por termos alguma incapacidade inata ou adquirida.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 Pilar e ao grupo de 11 magn\u00edficos caloiros que v\u00e3o come\u00e7ar as aulas na pr\u00f3xima quinta-feira dia 11 de Outubro, em Santar\u00e9m, alegra-me que este in\u00edcio de ano letivo tamb\u00e9m fique marcado por boas not\u00edcias. Esta novidade merece ser sublinhada pois a abertura de um novo curso em Portugal representa um passo significativo no respeito pela Conven\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e, de forma especial, pelos Direitos das Pessoas com Defici\u00eancia. Este respeito exige que sejam criadas condi\u00e7\u00f5es para o acesso e frequ\u00eancia ao ensino, em condi\u00e7\u00f5es de efetiva igualdade entre cidad\u00e3os. Nesta l\u00f3gica e com este prop\u00f3sito, esta forma\u00e7\u00e3o,\u00a0pioneira \u00e9 uma excelente medida e um primeiro pequeno-grande passo.<\/p>\n<p>Estive h\u00e1 poucos dias numa reuni\u00e3o conduzida pela mesma Pilar de que falo, a quem foi pedido que orientasse os trabalhos de mais de uma dezena de pessoas. Menos de metade dos presentes tinha, como ela, Trissomia 21. Os outros eram os tais \u2018normais\u2019 como se costuma dizer, mas acho a express\u00e3o igualmente detest\u00e1vel. Se agora trago essa reuni\u00e3o \u00e0 cola\u00e7\u00e3o, por assim dizer, \u00e9 porque foi muito bem dirigida e muito fecunda. Era preciso expor ideias e refletir sobre conceitos abstratos. A certa altura tornava-se necess\u00e1rio resumir essas mesmas ideias, partilhar experi\u00eancias e reflex\u00f5es. Todo este processo foi admiravelmente conduzido pela Pilar e digo-o sem favor nenhum, pois n\u00e3o fui a \u00fanica a notar a sua incr\u00edvel capacidade de liderar e orientar.<\/p>\n<p>Em Espanha, aqui mesmo ao lado, h\u00e1 profissionais com Trissomia 21 em quase todas as \u00e1reas de especialidade e at\u00e9 na pol\u00edtica. Faz-me sentido que assim seja, uma vez que muitos deles s\u00e3o pessoas extraordinariamente capazes de assumir certas tarefas com todo o profissionalismo e compet\u00eancias que as mesmas requerem. Ali\u00e1s, esta forma\u00e7\u00e3o que agora se inicia em Portugal existe h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada em Madrid e n\u00f3s, portugueses, somos apenas os 17\u00bas a import\u00e1-lo e a fazer a transfer\u00eancia de conhecimentos que este curso acumula desde que foi criado.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o em Literacia Digital para o Mercado de Trabalho \u00e9 uma r\u00e9plica do modelo que funciona h\u00e1 12 anos na Universidade Aut\u00f3noma de Madrid (UAM) e o conceito que a ESSE\/IP de Santar\u00e9m agora prop\u00f5e aos alunos portugueses passa por implementar uma forma\u00e7\u00e3o que dura 2 anos letivos. Ou seja, quatro semestres acad\u00e9micos com unidades curriculares adaptadas \u00e0 nossa realidade, a partir dos programas cedidos pela UAM.<\/p>\n<p>Proposta e j\u00e1 inscrita no Plano Nacional de Leitura do ensino Superior 2018, esta forma\u00e7\u00e3o consta do \u201cPlano Estrat\u00e9gico para a \u00e1rea da Ci\u00eancia, Tecnologia e Ensino Superior \u2013 Leituras Ci\u00eancia e Conhecimento\u201d, no ponto que refere \u201cA Educa\u00e7\u00e3o para a Inclus\u00e3o\u201d. Tudo isto representa uma enorme conquista, mas \u00e9 ao mesmo tempo francamente insuficiente para dar uma resposta cabal a todos os jovens eleg\u00edveis para frequentar este tipo de cursos, que s\u00e3o milhares.<\/p>\n<p>Desta vez houve 18 candidatos para 11 vagas, mas os jovens que n\u00e3o entraram j\u00e1 est\u00e3o \u2018na calha\u2019 para o pr\u00f3ximo ano. O curso destina-se a \u201cjovens com dificuldade intelectual e desenvolvimental com um grau de incapacidade at\u00e9 60% e \u00e9 um programa inovador e solid\u00e1rio, cuja particularidade mais relevante \u00e9 ser o primeiro modelo de forma\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o inclusiva em contexto de ensino superior para defici\u00eancia intelectual\u201d.<\/p>\n<p>Todos os alunos v\u00e3o treinar ou adquirir compet\u00eancias que lhes permitem resolver problemas e tomar decis\u00f5es estrat\u00e9gicas em contexto laboral. Para isso ter\u00e3o que estudar e trabalhar em equipa ao longo do curso, mas ter\u00e3o tamb\u00e9m que aprender a lidar com as novas tecnologias, sem as quais ningu\u00e9m pode ter sucesso no futuro.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos m\u00faltiplos apoios que chegaram de muitos lados, 8 dos 11 alunos ter\u00e3o transporte di\u00e1rio garantido e at\u00e9 a sala de aulas na Escola Superior foi estrategicamente pensada para melhor os acolher e integrar. Ter\u00e3o classes na sala que fica no centro da escola, com porta aberta para o p\u00e1tio onde circulam todos os alunos e professores dos diferentes cursos.<\/p>\n<p>Muito mais haveria para dizer sobre este curso e estes alunos, mas por mais que escrevesse deixaria sempre de fora algu\u00e9m que acreditou e fez com que outros acreditassem que era poss\u00edvel criar condi\u00e7\u00f5es para que estes e outros alunos pudessem estudar e aprender a ser aut\u00f3nomos. Sem querer fazer da Pilar um \u00eddolo e tomando-a apenas como ponto de partida para o lan\u00e7amento do curso, conto que foi ela que um dia levantou o bra\u00e7o e fez um pedido expresso aos pais e familiares:<\/p>\n<p>\u2013 Eu quero estudar!<\/p>\n<p>E \u00e9 porque a Pilar existe e existem muitos outros como ela, que este curso tamb\u00e9m passou a existir.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onze jovens que optam por estudar no Polit\u00e9cnico de Santar\u00e9m n\u00e3o fariam hist\u00f3ria se n\u00e3o tivessem uma caracter\u00edstica comum: todos t\u00eam mais de 18 anos e um d\u00e9fice cognitivo igual ou superior a 60%. Hoje escrevo porque a Pilar existe, mas sobretudo porque existem muitos outros como ela. 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